Desenraizamento Cultural
Cultura!  por Tiago Guimarães
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Conheça a nova Coluna do Portal Cabangu – CULTURA! – Escrita por Tiago Guimarães

 

 

“O enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana e uma das mais difíceis de definir. O ser humano tem uma raiz por sua participação real. ativa e natural na existência de uma coletividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro.” – Simone Weil

Comunidades Quilombolas da Paraíba


O resultado de uma raiz oprimida ou até mesmo abandonada, é uma árvore enfraquecida, morta. Durante toda a história podemos encontrar, seja na literatura ou nas atuais notícias, a dura realidade do desenraizamento cultural de pessoas e comunidades das mais variadas formas. A conquista colonial é sem dúvidas uma causa de desenraizamento onde, a princípio, o nativo é enfeitiçado por algumas novidades, benefícios e logo em seguida é arrancado de suas terras sem direito, sem opção. A conquista militar ditatorial causa o mesmo tipo de doença. Mas a dominação econômica central de uma região sobre outra do interior são, na atualidade, a maior causa de desenraizamento cultural, pois agem como conquista colonial e militar ao mesmo tempo.

O enraizamento é um direito humano esquecido. Todos nós temos uma raiz através de nossa participação numa coletividade que conserva os tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro. A indústria e a monocultura através do capitalismo avançado tem o poder de anuviar valores antigos, religiosos, artísticos, morais e lúdicos, consumindo e transformando-os em mercadorias enlatadas para turismo, propaganda para TV, rebaixando uma tradição a objetos de curiosidade do espectador urbano.

 

Quando, em algum momento da história, duas culturas se defrontam, não como predador e presa, mas como as mais variáveis formas de existir, uma é para outra um mundo de revelações. Raramente esse encontro perpassa a esfera de submissão versus domínio. A cultura dominada perde seus meios materiais de expressar sua raiz. Um dos motivos das lutas de demarcação territorial indígena, pela sua autonomia cultural, é porque não existe um todo social de que ele participaria fugindo da fatalidade de ser presa. Isolá-lo do predador é defesa de sua cultura e sobrevida tradicional.

O fato é que o isolamento não é a mola propulsora do enraizamento, pelo contrário. Encontrar mecanismos que comuniquem necessidades contemporâneas com tradições familiares é um dos maiores desafios encontrados atualmente, visto que não são todos interessados nessa ideologia. Fundações, associações, assim como ações comunitárias, são as maiores responsáveis por valorizar e resgatar saberes perdidos no tempo. Tais iniciativas possuem em seus núcleos, pessoas com uma chama ardente de mudar o mundo, somando e fazendo a diferença em sua comunidade.

Como é satisfatório ter acesso a um curso de artesanato com uma técnica conhecida somente pela avó, oficinas de música, teatro,dança, palestras sobre comunidades diversas, festividades religiosas e muitas outras oportunidades de estar em contato com as tradições de sua região. Tudo isso projetado, captado e produzido por ações socioculturais.

Há casos de desenraizamento tão impactantes que precisam muito mais que ações pontuais para amenizar os traumas, ocorridos pelo impacto colonial, militar ou econômico.  Precisa-se de imersão cultural, onde através da revelação de sua raiz podemos traçar mecanismos necessários que proporcionarão suas árvores a produzir frutos saudáveis e viçosos.

Pense bem quais são as ações de desenraizamentos que acontecem em seu município. Destruição de patrimônio material? Onde, por motivos estritamente econômicos, em algumas horas elimina-se uma identidade histórica e arquitetônica construída por décadas ou até mesmo séculos. Desapropriação territorial? Quando por motivos político-empresarial uma comunidade inteira é desabrigada, afogando todas suas memórias, tradições, saberes e valores.  Falta de apoio? Quando surge alguma ideia de valorização e ela é ignorada, dando prioridades irrelevantes para a sociedade e relevante para a iniciativa privada.

São iniciativas que surgem a todo momento e consomem toda nossa raiz. Basta uma atenção maior e rapidamente você as identifica. Quem mora no município de Santos Dumont-MG conhece muito bem a história do distrito de Dores do Paraibuna, hoje sendo mencionada como “Velha” “Nova” Dores. Será que os problemas ocorridos atualmente no distrito são reflexos do desenraizamento? Será que haveriam vários índices negativos se ainda morassem na “velha” Dores? Onde estão suas raízes mais profundas? Certamente um assunto para uma futura coluna.

Lembrem-se, o resultado de uma raiz oprimida ou até mesmo abandonada, é uma árvore enfraquecida, morta.

 

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